Refletindo sobre o filme “Coco”

Ao falar de “Coco”, a mais nova animação da Pixar, eu poderia abordar vários aspectos comuns no que escrevo sobre questões técnicas de cinema e séries, mas dessa vez acredito que isso não tenha real importância para mim. O longa aborda vários temas que poderiam ser a base de vários textos diferentes: a luta pelo sonho de vida, a visão negativa da sua família para algo que você ama, a cultura mexicana, ídolos que não são realmente boas pessoas, etc. Porém, nenhum dos assuntos que o roteiro trabalha me instigam mais do que as questões sobre morte e memória.

Essa abordagem do texto é um dos motivos de chamar o longa pelo seu nome original. Além de considerar “Viva — A Vida é uma Festa” uma tradução genérica e incapaz de transmitir o que realmente dá ritmo à história, a versão americana ressalta um dos personagens mais importantes da trama: Coco, a bisavó do protagonista Miguel. No Brasil, decidiram chamá-la de Inês, o que também mudou o título do longa, assim o tornando menos representativo do que realmente é. A idosa é fundamental tanto para criar a proximidade da morte quanto as memórias que se esvaem, além de participar das duas cenas que me deixaram com o rosto coberto por lágrimas.

Image for post
Image for post
Miguel e sua mama Coco, que participa de duas cenas comoventes do longa

Eu tinha total conhecimento do que se tratava a animação, mas o terceiro ato me derrubou. Um dos motivos para isso é a comparação inevitável que fiz da relação entre Miguel e Coco com a que tenho com minha avó. Isso fez com que todos os momentos deles em cena ganhassem mais emoção pra mim. Aracy Bueno, genitora de meu pai, é praticamente minha segunda mãe e sempre tive um convívio muito próximo à ela. Entretanto, em 2016 eu não fui um neto muito presente e isso fez com que eu mudasse tal hábito no ano seguinte.

Hoje, eu presencio as memórias da minha vó falhando mais intensamente e isso é um fato inevitável para todos nós ao envelhecer. Vê-la de tal forma me deixa um pouco aflito por saber que cedo ou tarde ela vai partir, mesmo que isso não seja um medo dela, já que sempre ressalta preferir o fim do que sofrer por causa de alguma doença que a torne dependente. Dona Aracy é uma mulher incrível e poderia receber dezenas de textos sobre ela.

O terceiro ato de “Coco” ainda evidenciou algo que eu nunca havia passado: enterrar alguém querido. Quando um dos meus avôs faleceu, eu tinha menos de 10 anos e não havia muito contato com ele, tanto que minhas memórias dele são ínfimas. As duas situações mais próximas disso foram com um colega de Magic: the Gathering que morava perto de casa e repentinamente teve uma embolia pulmonar fulminante. Na época, não tive uma reação emotiva por causa de algo que nublou esse sentimento, mas felizmente ainda mantenho muitas lembranças boas dele.

Esta inexperiência com a sensação do luto se reflete na perda que mais me senti fraco: a morte de Chester Bennington, vocalista do Linkin Park. Houve aquela sensação de negação por várias horas depois de ler a notícia sobre o óbito dele, mas ao cair da ficha a tristeza foi inevitável. Foi uma noite difícil, que eu ainda me sentia preso ao que ele representava para mim, revirando vídeos recentes dele, ouvindo os álbuns da banda e tentando entender como ele se sentia. Parte disso me afetou ainda mais por causa dos meus problemas com ansiedade.

Tal dificuldade em lidar com a morte não se enquadra apenas na possibilidade de perder alguém querido, mas também na forma de confortar uma pessoa que passou por isso. No último ano, uma ex-colega de trabalho perdeu seu irmão que estava hospitalizado durante um dia de expediente. Eu não sabia como poderia ajudá-la a se acalmar com a situação, mesmo que quisesse muito contribuir para contornar aquele momento difícil. No final, acabei dando os pêsames apenas quando ela terminou a semana de ausência no serviço.

Todos estes casos são memórias frescas que ficarão em mim por muito tempo e essa é outra relação do roteiro de “Coco” que merece destaque. Manter lembranças é algo importante tanto para construir a história de algo ou alguém como para manter vivo quem não pode estar mais presente fisicamente entre nós. Isso pode ser um simples legado de pequena proporção criado por quem parte, mas algo vital aos que ficam.

Estas lembranças podem ser tão comuns quanto o dia no parque com seu animal de estimação, a festa de formatura que só existiu por causa dos seus amigos, aquela noite com os amigos jogando conversa fora, as histórias de alguém mais velho que sempre pareciam surreais, etc. Porém, no final, elas sempre estarão presentes dentro de você quando alguém querido partir, assim o eternizando em ti. Mesmo que a morte possa ser desoladora, o remédio para ela já existe em todos nós.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store