Opinião: Legends of Runeterra é o melhor card game da atualidade

Legends of Runeterra é uma investida tardia da Riot Games de ter outro jogo além do grandioso League of Legends e adentrar em um gênero nichado. Entretanto, é uma tentativa impressionante pelo número de acertos. LoR é um compilado de pontos positivos gerados pela astúcia dos desenvolvedores ao pegar como base os acertos dos principais concorrentes e, principalmente, melhorar os aspectos que eles são tão falhos. Não é apenas mais um card game desenvolvido para conquistar público dos rivais, mas sim um projeto que exemplifica o que o estilo tem de melhor.

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A principal diferença na versão mobile é que sua mão fica no canto direito inferior da tela

Software e Mobile

Pode parecer besteira elogiar um ponto tão básico que todo jogo deveria ter funcionando bem, mas, infelizmente, isso não é um padrão. Legends of Runeterra já era bastante fluido durante o período que esteve em beta, mesmo com seu visual deslumbrante durante partidas e animações. Nada disso mudou após o lançamento oficial, mostrando que a Riot Games apenas colocou o jogo nas mãos do público exatamente quando poderia.

LoR se torna mais acessível pela excelência de sua versão mobile. Mesmo que eu jogue raramente pelo smartphone, é muito bom ter essa opção, ainda mais quando a experiência é próxima ao que é feito no PC. Obviamente, turnos complexos, que dependem de jogadas rápidas para tirar o máximo de proveito dos recursos, podem ser um pouco mais difíceis.

O mais importante disso tudo é que Legends of Runeterra se torna o card game mais acessível de todos — mesmo que Hearthstone também tenha essa possibilidade e não apresente grandes problemas. O MTG Arena, por exemplo, não é otimizado como deveria para o PC e dificilmente teria uma experiência agradável no mobile por causa das regras existentes no próprio card game.

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Arte de Sixmorevodka para a Ashe em seu Nível 2

Economia invejável

Quando eu argumento que Legends of Runeterra é o card game mais acessível, o fator econômico é considerado tanto pela possibilidade de jogá-lo pelo smartphone quanto pelos gastos mínimos que o jogador necessita para ter uma coleção vasta — ainda mais dentro de um gênero que torna-se cada vez mais caro.

O sistema econômico escolhido pela Riot Games é efetivo por causa de dois elementos básicos: não há pacotes com cartas aleatórias e semanalmente todos os jogadores resgatam recompensas pela quantia de experiência acumulada durante aquele período. Com essas duas ferramentas, a coleção é construída, assim facilitando a montagem de decks com regiões diferentes. Além disso, os jogadores recebem recompensas referentes a cada região do LoR com a XP gerada pelas partidas.

Outro ponto bastante relevante para a eficiência desse funcionamento é poder comprar com reais as cartas curingas, que podem se transformar em qualquer uma de sua raridade, ou gastar os fragmentos na carta que deseja — recurso que é acumulado conforme o jogador adquire a quarta cópia de alguma carta.

Obviamente, com o passar do tempo esse sistema econômico precisa ser melhorado para que novatos consigam se interessar pelo LoR sem sofrer no gerenciamento inicial da coleção, um problema que todo card game sofre para solucionar.

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Recursos que juntei apenas jogando para gastar com a próxima expansão

Jogabilidade igualitária e em constante desenvolvimento

Legends of Runeterra ainda me impressiona com seu game design baseado em características igualitárias. Ambos os jogadores compram carta e ganham mana no início de cada turno, todas as unidades (seguidores e campeões) podem atacar no turno que são colocados em jogo, a quantia de unidades na mesa é igual para os dois, etc. Pode parecer algo pequeno, mas essa “jogabilidade espelhada” evita frustrações no desenrolar da partida, como apenas um dos jogadores colocando minimamente sua estratégia em prática.

Esses mecanismos evitam algo bastante preocupante e comum em vários card games: a frustração. As regras do LoR permitem que o jogador coloque sua estratégia em prática regularmente e raramente a aleatoriedade se torna um fator decisivo para o resultado final da partida.

Estes aspectos se mantêm consistentes porque os desenvolvedores lançam periodicamente atualizações com buffs, nerfs e até mesmo reworks em algumas cartas, assim criando dinamismo no metagame. Decks que se consolidam como Tier 1 nem sempre continuam naquela categoria no mês seguinte por causa das modificações.

O sistema de atualização do Legends of Runeterra deve ganhar ainda mais eficácia nos próximos meses com o lançamento da nova coleção, que terá uma região inédita e mais cartas para as já existentes, assim ampliando o leque de possibilidades para a montagem de decks. Além disso, bimestralmente novas cartas serão inseridas para movimentar ainda mais o metagame do jogo.

Atmosfera envolvente

Apesar de não ser um elemento vital para o sucesso de jogos do gênero, a atmosfera envolvente que Legends of Runeterra possui é um aspecto bastante prazeroso. Interações, muito bem dubladas em português, fazem com que o jogador entenda o envolvimento dos personagens daquele universo, assim aumentando o lore de League of Legends. Além disso, as artes podem ser expandidas para melhor visualização em tela cheia, assim permitindo que todo o trabalho do artista seja realçado.

Para quem é fascinado por cosméticos, LoR apresenta um sistema de customização bastante avançado para o gênero. Emotes e versos de cartas são muito comuns em jogos digitais da atualidade, mas a escolha do seu tabuleiro, que possui efeitos e trilha sonora próprios, é um diferencial que dá ainda mais autenticidade ao que o usuário deseja.

Eu ainda gostaria que skins fossem inseridas como cosméticos das cartas, mas para isso funcionar completamente, as animações dos campeões também precisam ser adaptadas ao novo visual do personagem, algo que pode ser muito trabalhoso para algo supérfluo e sem retorno garantido.

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ViktorKav stremando os jogos da Twitch Rivals com outros criadores de conteúdo do LoR

Comunidade surpreendente

Para quem já está cansado da toxicidade existente nos jogos virtuais competitivos, a comunidade de Legends of Runeterra surpreende pela receptividade. Criadores de conteúdo e jogadores focados em torneios ou ranqueada são bastante receptivos, um fator fundamental para evitar um ambiente desagradável — algo bastante comum nos jogos criados pela Riot Games.

Entre os brasileiros, já existe um grande número de criadores de conteúdo com bons canais de stream (Hanter Arqueiro, Serkét, Bota TCG, Teta do Urso, Totalmaster, ViktorKav, Carolzii, MahSgarbi, etc) e jogadores competitivos com resultados excelentes nos torneios que disputaram (4LW, Sudrakon, The BlackBoss, Ian Pegasus, Yangzera, Carol Anet, etc). É fundamental para o crescimento do LoR a participação ativa da comunidade, ainda mais quando passamos por um período complexo de isolamento social, assim dificultando até mesmo a Riot Games de fomentar seu próprio produto.

Obs: eu poderia ter citado muito mais pessoas no parágrafo acima, mas ele teria ficado gigantesco. Conheçam os criadores de conteúdo e jogadores de Legends of Runeterra para entender esse aspecto positivo em relação à comunidade.

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Completar os desafios (tutoriais) é o primeiro passo para entender todas as regras do LoR

Complexidade

Mesmo que eu tenha histórico com outros card games (Pokémon TCG, Hearthstone e Magic: The Gathering), ainda sinto aspectos inovadores dentro do Legends of Runeterra, principalmente nos elementos mais complexos dentro das regras. Um exemplo básico que eu sempre gosto de ilustrar são as três manas sobressalentes que o jogador pode administrar para conjurar feitiços.

Com esse sistema de reserva de mana há várias implicações importantes para desenvolvedores e público: 1) Como o jogador vai gerenciar isso no decorrer dos turnos? 2) Qual é o custo ideal para alguns feitiços não se tornarem quebrados dentro do metagame? 3) Ele deveria ser um feitiço rápido ou súbito seria exagero? Felizmente, a equipe da Riot Games comenta bastante sobre as escolhas feitas por eles nas notas de atualização e até mesmo nas redes sociais. Acompanhar a argumentação do Steve Rubin pelo Twitter é bastante enriquecedor.

Definir o momento ideal de ataque dentro do turno e qual a ordem dos combatentes fará a diferença em muitas situações, algo que precisa ser pensado e analisado calmamente para não perder dano letal ou entregar uma partida que já estaria ganha. O jogo tem o combate como fator importante da partida para recriar a sensação de “teamfight” existente dentro do League of Legends — algo que é crucial se bem executado pelos membros da equipe. Esse momento é ainda mais emblemático por causa do Olho do Oráculo, capaz de mostrar os efeitos futuros do posicionamento dos atacantes/bloqueadores e na resolução de mágicas na pilha.

Para quem tem participado de torneios de LoR, montar a lineup ideal é um exercício bastante decisivo. O jogador precisa pensar quais regiões ele usará na montagem dos três decks, a combinação ideal para seu estilo de jogo, como ele deverá banir as opções do oponente com base naquilo que ele registrou para o evento e estar bem treinado com todas as listas selecionadas. Ainda é preciso levar em conta que o metagame em constante mudança não permite que os jogadores fiquem acomodados em manter uma lineup durante muitas competições.

Longe da perfeição

Mesmo que meu texto pareça uma carta de amor a tudo que Legends of Runeterra apresenta atualmente, eu ainda acredito que ele possui muitas falhas que precisam ser preenchidas nos próximos meses. Felizmente, algumas delas já foram anunciadas para esse ano, como o modo espectador e a escolha da arte que ilustra o seu deck, mas ainda não é o suficiente.

Eu não acredito que os dois modos mais novos, Laboratório e Contenda, são bons o suficiente em suas propostas. O primeiro só teve uma versão até agora, que até funciona bem como uma releitura do ARAM do League of Legends, mas não soa casual o suficiente para divertir o público que não se importa com a ranqueada. Os desenvolvedores devem trabalhar em formas mais diversas para o jogador descontrair, assim ampliando um aspecto falho do LoR. O Hearthstone recebeu o Battlegrounds para preencher essa lacuna, algo que funcionou melhor do que esperado, já que o card game da Blizzard voltou a crescer depois disso.

Em relação à Contenda, ela não é realmente competitiva, mas apenas um evento que impõe uma situação incomum de jogo com cosméticos pouco chamativos de premiação. Se a recompensa dela não é realmente especial, por que o jogador focado em competitividade vai gastar tempo nela se pode jogar a ranqueada? Espero que os desenvolvedores mudem os prêmios ou criem regras mais desafiadoras, assim tornando o modo realmente interessante.

Ainda sobre o fator competitivo, a Riot Games precisa em algum momento fomentar o potencial que o Legends of Runeterra possui. A comunidade, tanto no Brasil quanto no exterior, tem sido a grande responsável pela realização de torneios online. As edições do Duels of Runeterra, BR Fest e Giant Slayer são exemplos claros de jogadores com potencial altíssimo dentro do cenário. Espero que a ranqueada ganhe mais importância para um circuito competitivo, principalmente pós-pandemia, quando os torneios presenciais podem ganhar força, como já pode ser visto na Coreia do Sul com a organização do torneio Deck Masters.

Legends of Runeterra vive seus primeiros meses de vida e talvez isso me deixe tão encantado com tantos acertos que a Riot Games tem conseguido com o seu card game. É muito bom se sentir satisfeito e, até mesmo, feliz com a forma que os desenvolvedores explicam o caminho que eles estão traçando conforme as atualizações, ainda mais quando é tão perceptível tais acertos.

O LoR ainda tem muito para modificar e assim alcançar todo seu potencial, algo que talvez nunca aconteça, mas a experiência atual de jogá-lo me impressiona cada dia mais. Divertido, complexo, balanceado e bonito, tudo que eu não imaginei que encontraria num card game novo depois de consumir o gênero durante vinte anos da minha vida. Que esse período de acertos não acabe cedo e a Riot Games consiga fazer do Legends of Runeterra o sucesso que ele merece.

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Jornalista que se perde em devaneios sobre a vida e cultura pop

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