O Gambito da Rainha e o amor pelo jogo

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“O Gambito da Rainha” deve ser a maior surpresa da Netflix em 2020. A minissérie não era uma das produções mais aguardadas pelo público, mas é uma excelente amostra de sucesso pela forma que adapta o livro homônimo, escrito por Walter Tevis, de maneira envolvente e dinâmica, algo que é bastante complexo de ser feito quando a atmosfera dos principais acontecimentos são durante partidas de xadrez, um esporte mental de nicho.

Na trama, Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy) é uma jovem que sofre uma tragédia familiar e descobre no seu talento pelo xadrez um refúgio para os problemas que envolvem o seu mundo. Ao mesmo tempo que se torna uma enxadrista renomada, a protagonista se torna cada vez mais dependente do seu vício por calmantes e álcool, dois obstáculos para atingir seus objetivos profissionais.

Parte do encanto que existe em “O Gambito da Rainha” reside na atmosfera de descoberta pelo jogo e como o ambiente de torneio é recriado. Apesar de não ter experiência competitiva com o xadrez, um jogo que nunca me conquistou, é prazeroso acompanhar a ainda criança Elizabeth Harmon descobrindo seu talento, muito bem interpretada pela jovem Isla Johnston. O roteiro faz com que o telespectador, que não conhece as regras básicas, possa absorver um pouco dos conceitos estratégicos conforme a protagonista também adquire essa informação.

Eu vivi boa parte da minha vida participando de torneios de card games e foi impossível não me ver nos ambientes competitivos que a Elizabeth Harmon faz parte durante sua ascensão profissional. Divisão de mesas, tempo de rodada, marcação de resultado, viagem para competições próximas, etc. Tudo isso é bem representado e não fica com aspecto genérico. Além disso, ela é o rosto incomum dentro daquele universo masculinizado, o que gera situações de questionamento do potencial por parte dos homens, um paralelo que infelizmente pode ser visto nos dias atuais.

A paixão da protagonista por absorver conhecimento sobre as táticas e personalidades do xadrez é outro exemplo que se enquadra em como eu me relaciono com cardgames. Essa busca incansável pela melhoria técnica é uma constante para quem adora participar de competições. Elizabeth Harmon revisita partidas, questiona suas jogadas, analisa oponentes, fica nervosa ao descobrir seus erros, recebe ajuda dos amigos e se frustra com suas decisões.

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Mesmo que o roteiro seja excelente em criar atmosfera e mostrar a determinação da Elizabeth Harmon, ainda mais quando é confrontada, ele não se aprofunda nos momentos mais sombrios da enxadrista e utiliza facilitações para agilizar a narrativa. Isso faz com que alguns personagens sejam mais importantes como ferramentas da jornada da heroína do que elementos vivos daquela história.

Scott Frank é criador e roteirista da minissérie, mas é na direção que ele mais acerta, principalmente em combinação com a edição dinâmica que a produção cria para as partidas. As cenas são repletas de cortes curtos que passeiam entre as jogadas precisas dos participantes e a linguagem corporal que determina o que aquele competidor está pensando. Xadrez se torna atrativo até mesmo para quem não o conhece porque a narrativa criada dá ritmo e dramaticidade aos movimentos, seja das peças pelo tabuleiro ou nos olhares centrados.

A atuação precisa dos lances de cada ator durante as partidas é excelente, mas nada se compara à efetividade do olhar da Anya Taylor-Joy. Seu par de olhos já é uma marca registrada da atriz em seus poucos anos de Hollywood, mas é nesta minissérie que eles se tornam mais impactantes. Cada cena fechada no rosto da protagonista ganha mais vida pela forma que ela demonstra a força que há na enxadrista ao avaliar os movimentos adversários. Quando fragilizada pelos problemas pessoais, eles se abaixam e ficam perdidos nos pensamentos. Uma escolha ímpar para o papel.

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“O Gambito da Rainha” é surpreendentemente envolvente pela forma dinâmica que a narrativa desfruta das partidas de xadrez para contar a história de Elizabeth Harmon, que funciona de forma magistral pela atuação impecável de Anya Taylor-Joy. Figurino e fotografia ainda encantam na composição de ambiente dos anos 60 e nas características da personagem principal. A jornada da heroína norteia uma história repleta de altos e baixos, mas que não perde em nenhum momento a atratividade, seja pelos talentos da protagonista, seus atos falhos ou a busca incansável de seus objetivos.

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